Reincidência da remoção de obras de arte em Porto Alegre e a ocultação do documento

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Santiago Pooter, ‘Enquadro’, 2020. Fotografia, Boletim de Ocorrência e definições de dicionário impressas. Parte da obra na Exposição Coletiva dos Finalistas do Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea. Paço da Prefeitura, Pinacoteca Aldo Locatelli, Porto Alegre (RS). Crédito: Santiago Pooter.

Texto publicado em 19.12.2020 no Nonada — Jornalismo Travessia, in http://www.nonada.com.br/2020/12/ainda-e-importante-respeitar-a-arte/. O Nonada — Jornalismo Travessia é um coletivo de jornalismo cultural e alternativo de Porto Alegre/RS. Desde 2010, procura relacionar as diversas formas de expressão artística com temas relativos aos direitos humanos.

por Guilherme Mautone

Professor, doutorando em Filosofia pela UFRGS, membro do Colegiado Setorial de Artes Visuais da Secretaria da Cultura do Estado do RS, editor da Revista PHILIA e docente da Casamundi Cultura.

Depois dos acontecimentos que encerraram a exposição Queermuseu em 2017, os casos de censura às artes passaram a receber mais atenção por parte da sociedade, já preocupada com o recrudescimento de uma cultura pouco favorável às manifestações artísticas no Brasil e que marcou a história recente do nosso país antes da redemocratização. No mesmo ano do fechamento da mostra, inaugurou-se o Observatório de Censura à Arte, vinculado ao Nonada — Jornalismo Travessia, e que se empenha em mapear os diferentes atos censórios para poder deles se lembrar no futuro, comprometendo-se também com a memória coletiva e com a história brasileira recente. …


Sobreposições formais e heranças miasmáticas na obra de Pietro Kosta

Ao longo do texto, falarei sobre três trabalhos específicos de Pietro Kosta, artista contemporâneo de Porto Alegre (RS). São três trabalhos bidimensionais — mais especificamente pinturas, ou em lona ou em outros suportes — que a meu ver suscitam uma problematização madura sobre a questão das heranças no Brasil. Minha sugestão é que o trabalho de Kosta, por proceder a uma desmontagem contextual das imagens através das sobreposições, oportuniza uma espécie de crítica dessas imagens herdadas que circulam midiaticamente e que servem, ao cabo, para a manutenção acrítica dos mitos de fundação brasileiros.

Outro comentário, à título de preâmbulo, é que o texto a seguir faz parte de um projeto maior sobre o estatuto da herança miasmática do mito de fundação no Brasil pela via da arte contemporânea. Nesse sentido, penso o trabalho de Kosta como estando inserido num contexto de problematização da realidade social e histórica brasileira, junto de outros artistas visuais contemporâneos como, por exemplo, Rosana Paulino, Berna Reale, Marcela Cantuária e Nô Martins. …


Texto de apresentação de Arquipélago: movimento coletivo de artistas e pesquisador_s das artes ilhad_s

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T. S. Eliot, poeta de língua inglesa e Nobel de Literatura, iniciou seu épico modernista A Terra Devastada com uma imagem ambígua sobre a crueldade do mês de abril, capaz de fazer “brotar lilases na terra morta” e atiçar “a memória e o desejo”. Se, contudo, elas brotam da terra morta, é porque ali estavam soterradas sob suas formas hibernantes, dormitando até a chegada do bom tempo. É possível enxergar na abertura do poema de Eliot também uma metáfora para o aparecimento do próprio poema, para a emergência do artístico em dias cruéis. …


Sobre uma polêmica envolvendo o livro da Pablo Amadeo / Aspo

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Agradeço, sobretudo, Gisele Secco e Jeferson Huffermann por terem avançado algumas divergências ao meu texto publicado no jornal Zero Hora, alertando-me e iniciando esse debate. Suas objeções, especialmente em relação ao título e capa, de fato ocuparam-me, fizeram-me refletir e acabar concordando com eles. Espero que sigamos pensando sobre a pandemia da covid-19, sobre nossa atuação enquanto filósofas e filósofos e, sobretudo, procurando construir juntos modos de sermos mais solidários uns com os outros. Especialmente, porque, para além do título e da capa, os posicionamentos de alguns intelectuais merecem subsequentes problematizações.

1.

Desde que foi publicado, agora em março de 2020, o livro Sopa de Wuhan — Pensamiento contemporáneo en tiempos de pandemias (Pablo Amadeo / Aspo) foi recebido com entusiasmo e, também, com severo criticismo. Embora os textos de filósofas e filósofos aí coligidos se pretendam como uma espécie de pontapé no debate intelectual mais ‘organizado’ em relação à pandemia da covid-19 e, por essa razão, estejam cada um a seu modo submetidos ao crivo das leitoras e dos leitores, a mais severa crítica ao livro enfoca a escolha de seu título e capa. …


Texto publicado no Jornal Zero Hora (Porto Alegre, RS), Caderno Doc, 11 a 12 de abril de 2019.

Link para o texto: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/livros/noticia/2020/04/racismo-e-desigualdade-sao-destacados-por-principais-filosofos-da-atualidade-em-e-book-gratuito-sobre-a-covid-19-ck8rgxq0r00yk01qwasqx0rn3.html

Em março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que o
surto de covid-19 havia se tornado uma pandemia. O novo coronavírus, inicialmente registrado na China, ganhava novo estatuto epidemiológico. Perdendo sua precisão geográfica, acelerava seu contágio e evidenciava a transmissão comunitária. O vírus se fez senhor do espaço e do tempo, ganhando o mundo. O contágio pelo corpo atesta agora nossa profunda conexão biológica e social. No encontro público, os corpos se tocam, trocam linguagem e afeto, deixam uns sobre os outros seus rastros biológicos. …


Texto apresentado na Semana Acadêmica da Filosofia da UFRGS de 2019: Conhecendo a Filosofia da UFRGS: Quem somos? O que fazemos?. Dia 27.11.2019, mesa A Pós-Graduação em Filosofia

Rimbaud, precoce e maldito poeta francês do século XIX, em sua Temporada no Inferno, expressou a incontornável tarefa de uma nova arte que se traduzia na heresia fascinante de um imperativo pela modernidade. Disse ele: “Uma noitinha sentei a beleza nos meus joelhos e achei-a amarga. E eu a feri” (Rimbaud, 1984, p. 123).

Quais ligações existiriam entre arte e estética? …


Respostas ao Pobrismo de Butique

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Talvez se encarem os fatos, o mundo, a vida que levamos e também as questões que teimamos em discutir por um viés diferente dentro dos contextos da jardinagem e da moda. Ou, talvez, eu esteja sendo igualmente leviano ao pretender falar de coisas sobre as quais não me ocupo diuturnamente, ou profissionalmente. Apesar do meu dedo verde e do meu confesso interesse pela moda, eu me arriscaria a proferir juízos sobre esses campos da ação humana, ou da dileção, com demasiado cuidado.

Alguns filósofos se interessaram por jardinagem. Intelectuais também se interessaram por moda. Mas, em nenhum deles, assim me parece, encontramos esse desiderato preconceituoso, criador de distâncias, reprodutor de discursos já conhecidos, usados ao ponto do esfarrapamento. Montaigne plantava seus repolhos e cuidava de sua horta enquanto via, nessa atividade aparentemente trivial, o surgimento digno e grandioso de uma questão essencial sobre a qual qualquer homem, mais cedo ou mais tarde, deverá se debruçar. Assim, a visada da morte pelo portão desajeitado do jardim, enquanto se arava a terra e se retirava alguma folha seca de uma planta ainda viva, anunciava somente a chegada natural, mas não ansiosamente aguardada, de um problema filosófico incontornável. Wittgenstein também fora, acredito, um jardineiro em algum momento da sua interessante vida. …


Apropriação de espaços, reestruturação de dispositivos institucionais e mundo da arte.

Texto preparado para Exposições que marcaram a história: vivências e relatos. Anelise Valls & Paula Trusz (Org.). Centro Cultural da UFRGS | Abril a julho de 2019.

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Exposição O PLENO ou O VAZIO, Espaço Ado Malagoli, Instituto de Artes, UFRGS, de 17 a 25 de novembro de 2009. Foto: Eduardo Montelli e Juliano Ventura.

1.

Por que escolhi falar de O PLENO ou O VAZIO? Na época eu acompanhava de perto o trabalho de Eduardo Montelli e Juliano Ventura, bem como o de Isabel Ramil e Letícia Bertagna. De modo que as experiências do convívio com esses artistas me proporcionaram marcaram decisivamente meu modo de pensar as relações entre reflexão filosófica e produção e recepção de arte. Sobretudo a arte contemporânea. Em função dessa proximidade tive a oportunidade de acompanhar muito de perto todo o processo de concepção de ideias artísticas, das inspirações iniciais às discussões sobre as diferentes camadas de sentido de um trabalho, da tentação de romper com certas tradições ao desejo de se alinhar a outras, bem como das minúcias produtivas e elaborativas aos detalhes expográficos. O PLENO ou O VAZIO, no entanto, se me recordo bem, foi planejado um tanto em segredo. O que hoje parece complemente adequado, considerando o aspecto disturbacional da própria exposição. …


Ou, como me disse K. Rosenfield, chutando cachorro velho.

Em outubro de 2009, cinco anos atrás, a cidade de Porto Alegre foi cenário de uma polêmica interessante. Ela envolvia a publicação de uma crítica sobre um conjunto de obras de arte alocadas na capital e sobre o estatuto desafiador da arte contemporânea. …


Breve ensaio em resposta aos detratores

Logo após a publicação do meu pequeno texto sobre o problema da censura no site da Zero Hora, uma das primeiras orientações que recebi de amigos foi um imperioso “Não leia os comentários!”. Tratava-se, não tenho dúvidas, de uma orientação carinhosa para que eu me protegesse de possíveis ofensas, calúnias, preconceitos e toda sorte de impropérios que, no Brasil de 2019, saíram de vez dos antigos armários ganhando retumbante clareza existencial. No entanto, minha teimosia e minha pequenina curiosidade (um tanto narcisista, admito) com a opinião alheia me impediram de seguir à risca o preceito dos mais experientes. …

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Guilherme Mautone

Atento aos sinais

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